quarta-feira, 27 de julho de 2011

A difícil arte de ler e escrever

Que difícil é manter um blog atualizado! Seja por falta de tempo, por falta de inspiração ou por falta de assunto esse blog ficou sem atualizações por mais de um ano. E só volto a escrever depois de tanto tempo para não me desacostumar com a escrita de textos não-técnicos.

Aderi ao twitter há pouco mais de um mês e vejo que é muito mais cômodo expressar-se em poucas palavras, em pouco tempo, de qualquer lugar e a qualquer hora. Os micro-textos do micro-blog são uma tentação: "Pra que passar 20 minutos escrevendo um post num blog se eu posso passar a mensagem em 2 minutos pelo twitter?" (isso, claro, se eu conseguir resumir a mensagem que eu quero passar a 140 caracteres...).

O twitter exige objetividade e eu percebi que o costume dessa ferramenta estava me fazendo ter preguiça de ler e escrever mensagens mais extensas. Cada vez mais passei a ler apenas as manchetes nas reportagens e textos que apareciam. Nunca fui um leitor disciplinado, do tipo de ter "lista de livros que li nesse ano", mas sempre gostei de me informar sobre diferentes assuntos, de esportes a política, de cultura geral a ciência. E estava perdendo esse costume, estava me tuitizando demais.

Por isso quero voltar a escrever no blog, na esperança de que volte a ler mais argumentações além de simples manchetes. Não deixarei de usar (ler) o twitter, que certamente é a melhor ferramenta de difusão de informação que existe, mas espero me expressar em mais do que uma simples frase. Esse primeiro meta-post é o primeiro de muitos (espero).

Saudações a tod@s

quinta-feira, 4 de março de 2010

O terremoto estava previsto e publicado!

(escrito em 02/03/2010)

Agora mais tranquilo, na Universidade e trabalhando. Estou no grupo de Ecologia da Universidade Católica, onde vou trabalhar com o professor Pablo Marquet. Ele me recebeu muito bem e à tarde teremos uma reunião para começar a vida normal.

Pablo me passou um artigo de 2008 que diz que existia grande risco de um terremoto de magnitude 8-8,5 na região de Concepción num futuro próximo. Envio o artigo em anexo, basta ler o início e o finalzinho do abstract para ter uma idéia do que fala.

A ciência ainda não está presente na vida das pessoas a ponto de que possamos dar importância a artigos como esse antes dos acontecimentos. A não ser que estejamos em um filme de Hollywood. Eu mesmo não creio que levaria esse artigo a sério a ponto de preocuparme... uma pena. Uma prova de que tenho que levar a ciência mais a sério!

beijos,

Charles

quarta-feira, 3 de março de 2010

Pós Terremoto - parte V

(escrito em 03/03/2010)

oi povo,

Como já vi que saiu nos jornais do Brasil e da Espanha notícias sobre novos tremores, escrevo apenas para tranquilizá-los, na medida do possível.

Senti os tremores aqui na Universidade, há uns 15 minutos. São tremores de média intensidade, fáceis de sentir mas que não trazem mais prejuízos a Santiago. A cidade suportou bem os tremores mais fortes de 8,8 e novos tremores como esse último (que foi de 6,0) não trazem mais problemas.

Acontece que esses mesmos tremores de 6,0 em Concepción têm consequências mais graves. Naquela região a  maioria das casas foi destruída e as que restam têm graves danos, ali sim um tremor como esse pode ter consequências maiores.

Na parte de baixo do site http://latercera.com/ vocês podem ver uma série temporal dos últimos tremores e dá pra ver que tem havido muitos desde o grande terremoto, uns mais leves outros mais pesados. Ontem tivemos poucos tremores e sempre de pequena intensidade, e hoje tivemos esse de intensidade mediana. Pra que tenham uma idéia do que eles representam, é como se estivéssemos em um barco no mar, dá pra ficar tonto, mas nada que abale as estruturas dos prédios, se estes já  resistiram ao terremoto anterior.

Já o tremor de 8,8 é comparável a uma forte turbulência em um avião (forte meeesmo), com a diferença de que o comandante não avisa antes para apertarmos o cinto. Bem diferente do balanço de um barco, por  mais que haja ondas :)

Repito que a vida segue sua normalidade por aqui. Eu, como marinheiro de primeira viagem, obviamente fiquei rindo de tão nervoso na hora desse novo tremor. Saí para o corredor da Universidade e me encontrei com um grupo de umas 10 pessoas na mesma situação: se olhando e rindo sem saber o que fazer. Éramos brasileiros, uruguaios, bolivianos... os chilenos estavam em suas salas trabalhando normalmente como se nada tivesse acontecido. As réplicas são esperadas, diria até que são desejadas (não por mim, óbvio :)).

Os que estão em Concepción sim podem ter tido problemas, uma pena, já sofreram demais...

Enfim... a vida segue, não se preocupem. O que mais me tranquilizou nessa experiência maluca foi o testemunho de meu irmão (geólogo), uma professora (também geóloga) e de Sr. Antonio (expert em terremotos :)). Seus depoimentos são bem parecidos e me preveniram para possíveis réplicas, sempre mais fracas que o terremoto inicial.

No mais, fica o mesmo alerta: Cuidado com a mídia! Se possível, desligue a TV e afaste-se dos sites da globo, uol e adjacências. Eles querem vender o terror.

muitos beijos, abraços, saudades...

Charles

Pós Terremoto - parte IV

(escrito em 03/03/2010)

Oi povo,

Hoje escrevo apenas para confirmar que as coisas se acalmaram. Eu, por exemplo, não senti mais nenhum tremor e só sei que houve alguns pequenos tremores porque vi no site de um jornal daqui (http://latercera.com/). Na parte de baixo do site tem uma espécie de “série temporal” de tremores... ali dá pra ver bem que a frequencia e a intensidade deles vem diminuindo bastante (um tremor de intensidade 1,0 é 100 vezes mais forte que um de intensidade 0,9... é o que dizem). Alguns dos que recebem esse email só entraram agora na lista de contatos por conta da pressa em mandar os emails anteriores :)

Passei o dia na Universidade. Estou na PUC do Chile. Eles dizem que é a 3a instituição de pesquisa mais importante da América Latina, atrás apenas da USP e da UNAM (México). Provavelmente eles não conhecem a UNICAMP, a UFRJ, a UFRGS, a UFSC, a UFPE, a UFBA, a UEFS, …  :)

Estou num laboratório de Ecologia que conta com um grupo bastante interdisciplinar, com certeza vou aprender bastante no tempo em que ficar aqui com eles. O  coordenador do Laboratório, Prof. Pablo Marquet, me recebeu muito bem. Pra quem não sabe, tenho 3 orientadores (um físico/informático, um oceanógrafo e um ecólogo) e estou trabalhando com “modelização dos efeitos das mudanças climáticas em ecossistemas polares”. Desde o ano passado venho trabalhando com o físico do grupo (Alejandro) e vim para o Chile para começar a trabalhar com o ecólogo (Pablo). Ele disse que durante o período em que eu ficar aqui, quer me ajudar o máximo possível com minha tese, pois sabe que não tenho formação em ecologia e isso deve ser minha maior dificuldade para o doutorado.

Posso dizer que cheguei em Santiago hoje. Foi o primeiro dia de rotina, apesar de que o assunto do terremoto não saiu de cena definitivamente (nem vai sair tão cedo...). Já tenho muito o que ler para fazer uma apresentação na sexta-feira... ou seja, meus dias começam a entrar na normalidade de uma estância de doutorado... a partir de agora tenho que voltar toda minha atenção para isso! :)

Espero que estejam todos bem. Pelo menos em Santiago a vida voltou ao normal. Mas sabemos que em outros lugares esse avanço ainda vai demorar bastante, infelizmente.

Muitos beijos, abraços e saudades!

Pós Terremoto - parte III

(escrito em 01/03/2010)

Tenho tido dificuldades para conseguir a internet dos vizinhos, mas nesse pouco tempo procurei me informar numa das raras fontes de informação brasileiras em que confio.

Um texto com o qual concordo bastante, pelo pouco que observei aqui. Acrescenta a observação de que o terremoto no Haiti teve como Hipocentro (ponto de choque das placas tectônicas) uma região no continente, enquanto este terremoto do Chile teve como Hipocentro um ponto no Oceano, a alguns km da costa. E deixa claro que "Santiago Sobreviveu", que a vida segue na capital... Isso é o que chamo de "jornalismo"... diferente de outras coisas que chamamos de "mídia".

Abraços,

Charles

Vejam o texto:

Santiago sobreviveu!

Atualizado e Publicado em 01 de março de 2010 às 10:27

por Luiz Carlos Azenha, de Santiago, via R7

Se fosse apenas um filme, não uma tragédia, seria justificável o comentário de uma colega jornalista, que encontrei na portaria de um hotel da capital chilena: “Sinceramente, eu esperava mais”.

Talvez seja uma marca deste século midiático: medimos as tragédias pela capacidade que elas têm de gerar público e manchetes espalhafatosas para preencher os espaços entre os comerciais.

Pois a manchete, então, é a seguinte: Santiago sobreviveu!

Com hematomas, com certeza. O aeroporto fechou, o metrô também, passarelas de rodovias e alguns prédios mais antigos desabaram, vários serviços ficaram paralisados.

Mas no momento em que escrevo esse texto, menos de 48 horas depois do terremoto, a cidade nem parece que enfrentou o maior tremor dos últimos 50 anos.

Sim, há os inconvenientes para nos lembrar de como nos tornamos dependentes das comodidades da vida moderna, como a internet, o telefone celular e a água quente.

No hotel de executivos em que estou hospedado, bem pertinho do palácio presidencial de La Moneda, não há água quente para os banhos — o fornecimento de gás continua cortado — e os elevadores não estão funcionando.

Subir sete andares de escadas pode parecer traumático para quem acaba de completar uma viagem de 8 horas de automóvel desde Mendoza, na Argentina,  único jeito de chegar à capital chilena.

Mas não podemos esquecer que há menos de 48 horas esta cidade foi chacoalhada por um terremoto de 8,8 pontos na escala Richter. E Santiago funciona, ainda que aos trancos.

Conversando com um turista brasileiro, sem querer ele me explicou o motivo do “sucesso” de Santiago, que pode parecer trágico para os marinheiros de primeira viagem: o prédio do hotel em que estamos hospedados chacoalhou. Que é exatamente o que se espera de um prédio bem construído em uma região sujeita a terremotos: que chacoalhe, mas não desabe.

Deixo Santiago por um instante e mentalmente me transporto ate Tóquio, onde fiz uma grande reportagem em 2001: estive embaixo de um prédio altíssimo que incorporava molas gigantescas à sua estrutura, justamente para dar à construção mais flexibilidade nos tremores. É o famoso balança mas não cai.

Não tive tempo de ir ao subsolo checar se o prédio onde me hospedo agora tem molas na estrutura, mas é fato que a legislação chilena foi aperfeiçoada depois do grande terremoto de 1985. Nos últimos dez anos todos os prédios erguidos no Chile obedecem a normas internacionais para torná-los menos vulneráveis a tremores.

O que não é uma garantia absoluta. Estive nos escombros de uma das autopistas mais modernas de Santiago, que liga o centro da cidade ao aeroporto internacional e que veio abaixo feito um castelo de cartas. Um chileno protestou: “Pagamos pedágios caríssimos para andar nessavia urbana e veja só”. Só diz isso porque não sabe as “coisas” pelas quais nós, brasileiros, pagamos pedágio.

Mas esse episodio trágico é a exceção que confirma a regra: Santiago resistiu  surpreendentemente bem.

Talvez seja resultado das comparações inevitáveis com o que vimos no Haiti, embora essa historia de “comparar” terremotos tenha se transformado em uma espécie de gincana bizarra.

No caso de Porto Príncipe, o epicentro foi a pouco mais de 10 km; em Santiago, a mais de 300.

Ainda assim, é inegável que os danos nas duas cidades foram diretamente proporcionais à qualidade das construções e à estrutura dos governos locais. Quanto mais fraco o estado, maiores as conseqüências dos fenômenos naturais como enchentes e terremotos e menor a capacidade de lidar com elas.

Mas, se avançarmos no caminho das comparações, os haitianos não se saem de todo mal. Eu me lembro bem quando colegas, numa manifestação talvez inconsciente de racismo, previam que o mundo viria abaixo em Porto Príncipe, por conta de gangues que provocariam saques violentos. Foram dias até que um episódio do gênero de fato acontecesse em Porto Príncipe.

Pois aqui, em Concepción, a maior cidade da região realmente destruída pelo terremoto de sábado,  nem bem 24 horas se passaram e uma multidão atacou os armazéns de um supermercado.

Pós Terremoto - parte II

(escrito em 01/03/2010)

oi povo, como estão? Agradeço as mensagens de preocupação, agradeço os bons pensamentos... não parem que está dando certo! :)

Bom, a coisa mais importante que quero dizer nesse email é: não assistam os noticiários! NÃO ASSISTAM!! Porque nos noticiários eles não colocam notícias de lugares onde as coisas estão bem, colocam sim notícias de onde há mais problemas... todos sabemos que sempre foi e sempre será assim. A dor e a miséria trazem audiência... nenhuma emissora de tv vai a uma localidade onde não houve estragos se há tantos lugares cheios de problemas.

Eu estou em Santiago, num bairro chamado San Miguel. Estou na casa do pai de um companheiro do mestrado da Espanha (Antonio). É uma família encantadora, gente tranquila e alegre, muito receptiva, e muito acostumada a superar momentos como este. O pai de Antonio tem 80 anos, é bombeiro e ainda trabalha na coorporação na parte administrativa. Tem uma energia e uma tranquilidade admiráveis. Já presenciou pelo menos 5 grandes terremotos em sua vida, entre eles o de 1960, o maior já registrado na história. Ele nos passa uma confiança incrível, sabe exatamente todos os procedimentos a tomar em caso de réplicas e conduz a todos do prédio (um prédio pequeno, com apenas 4 andares). Sempre há alguém perguntando "Sr. Antonio, que devo fazer?" e ele sempre tem uma resposta precisa e tranquilizadora. Ele me convidou a ficar aqui em sua casa durante todo o tempo que permanecer no Chile, e eu fiquei muito feliz com isso! :)

Aqui no bairro de San Miguel não houve nenhum dano. Ontem saímos de carro para observar a região e não encontramos nenhum prédio com problemas. Nosso prédio em particular está em perfeita ordem, sem nenhuma rachadura interna ou externa. Sempre que há pequenos tremores nos posicionamos num pátio grande que há abaixo, longe de paredes e de postes. Estes pequenos tremores são frequentes e é bom que aconteçam: é durante os pequenos tremores que a terra se "acomoda", volta a uma posição de equilíbrio. Se não houvessem esses pequenos tremores a volta ao equilíbrio poderia ser com um tremor mais forte, a réplica que todos temem.

Até ontem não tínhamos eletricidade, e por isso estávamos muito distantes de todas as notícias. Sabíamos pelo rádio (a pilha) que havia problemas na região do epicentro e que havia risco de tsunamis em pequenas ilhas vizinhas, mas não tínhamos imagens da tragédia. Com a eletricidade veio a televisão e pudemos ver o estrago e a dor que existe em muitas regiões do país... Não tínhamos idéia de nada disso porque na região em que estamos não houve nenhum estrago, como disse. O Epicentro foi em Concepción, uma cidade há mais de 300 km de distância. Além da distância, Concepción é uma cidade mais pobre, as construções são frágeis, ao contrário de Santiago. Isso fez com que as consequências ali fossem tão desastrosas. É o mesmo que falava sobre a relação Chile x Haiti. Santiago tem outra estrutura, e por isso os problemas foram muito menores, e se concentraram em edifícios mais altos ou mais antigos. O prédio onde vivo é mais novo (tem uns 5 a 10 anos de construído).

Aqui temos água, eletricidade, telefone, e agora temos até internet sem fio que utilizamos dos vizinhos hehehe :) As pessoas já estão trabalhando normalmente e inclusive já contactei com o professor da Universidade, que está bem e me garantiu que posso ir ao  campus amanhã para começar as atividades (ele já está no campus, arrumando a bagunça da sua sala :)). Vou conversar honestamente com ele para ver o que farei, mas de qualquer maneira o aeroporto está fechado até a sexta-feira e pegar estradas é ainda mais perigoso que ficar aqui (não vamos esquecer que existe uma cordilheira imensa para atravessar até chegar ao Brasil hehehe :)). Decidirei tranquilo o que achar que for melhor para mim e para os meus. Não quero que ninguém fique preocupado demais, problemas de coração trazem tantos ou mais problemas que os terremotos :)

Essas boas notícias não significam que esquecemos a dor que vive o povo chileno, a distância que mantenho das notícias não significa que não me importo com a situação que vivem milhões de pessoas, mas sim que para superar as dificuldades que vivemos aqui creio que é melhor levar o dia-a-dia com um mínimo de alegria, paciência e paz... é impossível esquecer a tragédia porque a terra e a lembrança não deixam, mas temos que levar a vida adiante. Como sei que as únicas notícias que vocês têm é através da mídia, peço que esqueçam os noticiários e acreditem em mim. Para pensar pelo bem das famílias que sofrem com essa tragédia não precisamos ver as imagens. E se por um acaso virem essas imagens, saibam que não estou em nenhuma região coberta pela mídia, muito pelo contrário, estou distante uns 300 ou 400 km, a depender da região que falam. E mesmo as notícias sobre Santiago dão conta de regiões mais periféricas, pra variar, onde as pessoas sofrem mais... e eu estou numa zona de classe média alta.

Meus queridos, é isso que tenho a dizer. Muito obrigado pelos bons  pensamentos, sigamos adiante! Se tivesse uma máquina fotográfica enviaria fotos da casa e do prédio, para comprovar o que digo. Enquanto não consigo isso, creiam que não estou mentindo. Como diz um amigo meu, nos próximos dias é melhor que "desliguem a tv e leiam um livro" :) (vejam quem está falando de ler livro hehehe :)).

Pensem no lado positivo, posso colocar no meu currículo um dado que poucas pessoas têm: "Sobrevivi a um terremoto de 8,8 pontos na escala Richter"... isso há de fazer diferença quando tentar um emprego numa universidade :)

Muitos beijos, abraços, bons pensamentos... estou bem e não vejo a hora de reencontrálos. AMO VOCÊS, e essa experiência só reafirma muitos dos valores que eu tinha, além de trazer muitos outros novos valores...

Pós Terremoto - parte I

(escrito em 28/02/2010)

oi povo,

Escrevo apenas para dizer que estou bem. Todos já devem saber do terremoto que ocorreu ontem à noite aqui no Chile, mas escrevo para tranquilizar a todos, nao passou de um grande susto (grande pra dedéu, diga-se de passagem :)).

Importante dizer que nao aconteceu nada comigo, nem com ninguém no bairro onde estou hospedado. Sei de notícias que outros bairros tiveram muitos problemas, mortes e tudo. Sei que os números assustam (dizem que chegou a 9 graus na escala richter), mas é importante lembrar que o Chile nao é o Haiti. O tremor aqui foi mais forte, mas o país tem uma estrutura razoável (enquanto os pobres haitianos sofrem com o título de país mais pobre das Américas).

Demorei de dar notícias porque a eletricidade foi cortada e o telefone está oscilando muito (dizem que por sobrecarga do sistema). Mas na casa onde estou o máximo que aconteceu foram alguns copos e pratos quebrados.

No mais, agora tenho certeza de que meu coracao é forte, e espero que o de todos voces também seja. Nao parava de pensar em minha mae, Isis, Alex, Neno, meus amigos... muito mais imaginando a preocupacao de vocês quando soubessem a noticia do que propriamente pelo medo (claro que eu fiquei com medo... mas voces entenderam o que eu quis dizer :)).

É isso... amo todos voces muito! Estou agora em uma lan-house, pq o telefone da casa ainda nao está bom. Assim que puder faco um contato mais direto. Estou refletindo bem o que aconteceu pra nao tomar nenhuma decisao precipitada (na hora do terremoto a única coisa que eu lembrei de pegar foi o passaporte, daí vocês tiram sobre o que estou refletindo hehe :)). Mas agora o pior já passou e estamos esperando os servicos normalizarem. A cidade já está com vida normal.

Muitos beijos em todos!

Charles

Santiago do Chile

Oi,

Volto à ativa no blog para dar notícias sobre minha estância de doutorado em Santiago (Chile). Cheguei em Santiago em 27/02/2010 para iniciar uma estância de 2 meses (uma espécie de doutorado sanduíche) e nesse mesmo dia houve um terrível terremoto de 8,8 graus Richter que trouxe muita destruição em muitas partes do país. Estão sendo dias difíceis para muita gente, principalmente para os que acompanham as notícias à distância, preocupadas com familiares e amigos que aqui residem.

Nos últimos dias tenho mantido um contato mais constante com minha família e amigos para tranquilizar-lhes a respeito de minha situação aqui em Santiago. Tenho tentado ao máximo esclarecer que a TV e a mídia em geral não se preocupam em divulgar a notícia por completo, mas apenas o que lhes interessa. E o que interessa à mídia é a audiência. E eles usam a dor para obter a audiência. Divulgam as notícias de tragédias, de morte, de terror, e se esquecem de que parte do país sobreviveu ao terremoto. Enquanto fazem isso, fazem com que qualquer um que está no Chile seja encarado como uma pessoa "abaixo de escombros" ou "abaixo de água".

Por sugestão de meu grande amigo Machado (o menino que não gosta que bulam no seu prato de comida :)), vou postar a seguir algumas mensagens que enviei a minha família e amigos a respeito da situação que eu vivi, em particular. Uma situação difícil, mas superável.

Saudações,

Charles

domingo, 3 de maio de 2009

Pra nao dizer...

Pra nao dizer que eu abandonei o blog de vez, escrevo hoje um texto bem curto, apenas como desculpa para divulgar algumas fotos :)

Faz mais de um mes que nao escrevo, e nesse intervalo algumas coisas aconteceram. Ganhei um computador novo do Projeto, pra poder rodar os modelos mais rápido (mas pra mim foi um premio pelo trabalho intensivo), tive minhas primeiras aulas (aulas de desertificaçao, em espanhol :) ), o inverno foi embora de vez, as árvores já estao floridas e durante o dia já fez até 30 graus por aqui :), e a cidade já começa a encher de turistas (a populaçao quase triplica no período de turismo).

Ainda nao tenho camera fotográfica porque quero organizar outras coisas primeiro, mas já tenho internet em casa e isso está fazendo uma diferença danada na minha vida :) Agora o único motivo que tenho pra nao escrever é a falta de tempo (ou a preguiça :)).

Nesse fim semana tirei umas fotos pela cidade com a máquina de Thiago, que veio me visitar aqui em Palma. Posto algumas dessas fotos aqui pra que voces possam comprovar que o clima já nao é mais de inverno (e que meu cabelo ainda cresce :)).

Fomos em lugares que eu já conhecia da viagem que fiz em 2007: O "Parc de la Mar", a "Catedral Gótica" e o "Passeio Marítimo". Depois de andar um bocado fomos ver o jogo entre Barcelona e Real Madrid em um bar no Centro Histórico. O Barcelona ganhou só por 6 a 2, e um monte de torcedores foi pra rua comemorar o "pré-título" do Barça... pena que a bateria da máquina estava nas últimas e nao pudemos registrar a festa da torcida :P

Improvisando uma camiseta, no calor do meio-dia :)



No terraço do museu "Es Baluard", sem saber que estava sendo fotografado :)


Mostrando a minha negritude no "Parc de la Mar" :)



Eu fingindo que estava bebado, e Thiago fingindo que gosta de futebol :)



Estes tempos nao estou muito pra escrever... durante a semana as aulas e o trabalho tem me tomado um bom tempo, e no fim de semana eu procuro fazer coisas que exijam o mínimo de concentraçao possível (por mais difícil que isso seja :)).

Encerro esse texto da mesma forma que os anteriores: torcendo pra que essas fotos estimulem meus amigos e amigas a me visitarem, e motivos nao faltam pois a cidade é muito bonita, a ilha tem muitas praias também bonitas, eu adoro (e preciso) receber amigos, e começa a fazer calor por aqui :)

beijos e abraços, num computador com o teclado desconfigurado :)

Charles

sábado, 28 de março de 2009

Aniversário em Madrid, com fotos :)

Acho que o longo tempo sem escrever já é uma tradição, então nem vou me justificar :)

Durante toda essa semana estive em Madrid, para trabalhar com um grupo de pesquisa em biodiversidade e mudanças climáticas. Apresentamos nosso primeiro projeto de pesquisa e recebemos muitas, muitas, muitas, muitas críticas, mas também muitos elogios pelo trabalho feito em tão pouco tempo (pouco mais de 1 mês). Voltamos de lá com muito mais trabalho a fazer, e bastante empolgados também.

Além das atividades de trabalho, pude reencontrar Thiago, um amigo que fez física na UFBA e agora faz o doutorado em Física na Universidade Politécnica de Madrid. Em 2007 tentamos a mesma bolsa de doutorado pela AECI, ele conseguiu e eu fiquei esperando um pouquinho mais (até agora :)). Foi muito bom reencontrar Thiago em Madrid, principalmente na semana de meu aniversário... estar com um amigo me fez muito bem :)

Na terça-feira (24.03) fui a sua casa, onde ele fez um "arroz de aniversário" pra mim. Estávamos eu, Thiago, Sílvia (que mora com Thiago e também é de Salvador e faz doutorado em Psicologia) e Frederico (um amigo de Thiago que é de Belo Horizonte e faz mestrado em Marketing).

Eu apagando o "fósforo" de 27 aninhos :)


Da esquerda pra direita: Thiago, eu, Silvia e Fred

Na quarta-feira Thiago me mostrou um pouco do centro histórico de Madrid, mas não tiramos fotos pra registrar. Fui na Plaza Maior, no Palácio do Rei e em algumas ruas do centro histórico. Como a gente trabalhava até as 06 da tarde não dava tempo de conhecer muita coisa, mas foi o mais próximo de uma atividade "turística" que eu já estive desde que cheguei aqui na Espanha.

Na quita-feira tivemos o grande dia: O Jantar Baiano! Thiago tinha dendê em casa, mas nunca tinha feito uma moqueca. Me prontifiquei a fazer uma moqueca-de-camarão-sem-sal e ele topou :) Silvia fez um feijão fradinho, o arroz e a farofa. Nesse dia Fred não estava, mas estava Mariana, uma mexicana que faz doutorado em Biologia e está no mesmo Museu onde eu fiquei trabalhando. Foi uma ótima noite, regada a música baiana (músicas do Olodum dos anos 80 e 90) e com direito a bandeira da Bahia e tudo o mais :)

Comida baiana: sem sal, mas com dendê! :)


Os três baianos! :)


Depois do dendê: eu, Thiago, Silvia e Mariana

No fim das contas, tive um aniversário mais alegre que pensei que teria. Apesar de ter trabalhado muito, pude relaxar também nessa semana. Faz um bem danado encontrar pessoas conhecidas e queridas, motivo pelo qual insisto em convidar a todos: VENHAM ME VISITAR!!!! :)

Beijos, abraços e saudades

Charles

quarta-feira, 11 de março de 2009

Canções inusitadas na Espanha

Antes de vir pra Espanha, Garcia tinha me contado algumas histórias de seu período de estudos de doutorado em La Corunha (Galícia/Espanha). Uma das que mais gostei foi a história de quando ele percebeu que era chegada a hora de voltar para o Brasil.

Ele disse que estava fazendo compras em um supermercado (o Carrefour, acho) quando começou a tocar nos auto-falantes uma música de Marisa Monte. Garcia gosta muito de Marisa Monte e disse que ao ouvir aquela música ficou tão emocionado, lembrou com tantas saudades da vida que tinha no Brasil que começou a chorar... era a hora de voltar pro Brasil!

Achei essa história bem bonita, a vida da gente é cheia de trilhas sonoras, muitas músicas nos fazem lembrar momentos bons ou ruins e, em alguns casos, podem nos motivar a tomar uma ou outra atitude... como voltar para o seu país de origem, por exemplo. Muitas vezes fiquei imaginando qual seria a trilha sonora que me faria tomar essa decisão, qual seria a trilha sonora que me faria lembrar do Brasil com uma saudade tão insuportável a ponto de voltar de imediato!

Nunca fui de ter ídolos na música, mas gosto muito de Raul Seixas, Bob Marley e Beatles (muitos dizem que tenho uma alma velha... que deveria ter nascido nos anos 60 ou 70 :))... gosto de ouvir forró também (ouvir, porque dançando eu ainda sou uma negação :)). Sempre pensei que se tivese que me emocionar ao ouvir uma música pra poder voltar pro Brasil então eu ficaria por aqui mesmo, porque acho que vai ser um pouco difícil ouvir Raul Seixas ou Luiz Gonzaga em qualquer lugar acima do Equador :) Mas, apesar de achar isso, tinha curiosidade de saber qual seria minha reação ao ouvir músicas brasileiras por aqui.

Nunca pensei qual cantor brasileiro deve fazer sucesso na Europa a ponto de ter suas músicas tocando em rádio ou em supermercados :) Só tenho notícia de um grupo que tocava lambada nos anos 80 e que fez muito sucesso por aqui, e de João Gilberto que é unanimidade intergalática (na verdade, unanimidade não porque eu não gosto :P). Nesses 41 dias confesso que tive algumas surpresas.

As primeiras músicas brasileiras que ouvi aqui foram durante o carnaval. Houve um desfile cívico na rua (parecido com o 7 de setembro). As comunidades dos povoados da ilha e dos imigrantes desfilavam fantasiados nas principais ruas, mostrando danças típicas. Algumas fantasias faziam críticas sociais, principalmente contra a crise... toda a cidade vai às ruas para assistir o desfile, muitos dos que estão assistindo também vão fantasiados. Um clima legal, bem diferente do carnaval de Salvador... nem melhor nem pior: diferente :)

Foram duas as músicas que ouvi nesse dia! A primeira foi durante um desfile de um grupo de jovens de Maiorca. E, para meu espanto, era nada mais nada menos que ILARIÊ, de Xuxa. E espanto maior ainda foi ver todo mundo nas ruas cantando a música (em espanhol, claro). Cheguei a pensar que Xuxa talvez tivesse feito uma paródia de uma música conhecida por aqui, mas estava com uns espanhóis que me disseram que eles conheciam a música cantada por Xuxa, a rubita de Brasil. Quem diria? :)

A segunda música estava tocando durante o desfile de uma comunidade russa. O pessoal desfilava simulando o exército ou algo assim. Tinham um tanque de guerra, um foguete, um monte de gente com armas de brinquedo, vestidas de soldado... e advinhem qual a música que estava tocando: uma de Carlinhos Brown, ou Carlitos Marrón, como dizem aqui :). Maria Caipirinha é o nome da música... agora o que ela tem a ver com a guerra só perguntando aos russos de Maiorca :). Por incrível que pareça, tinha menos gente cantando essa música do que cantando o ILARIÊ de Xuxa :)

Dias depois, estava em casa numa bela manhã de domingo, fazendo minha faxina semanal, quando escuto um som familiar, um sotaque conhecido e os inesquecíveis versos: "Segura o Tchan! Amarra o Tchan! Segura o Tchan-Tchan-Tchan-Tchan-Tchan!". Olhei na janela e vi um carro e seu condutor tranquilamente ouvindo É o Tchan. Simplesmente inacreditável!

Tão inacreditável quanto ouvir Roberto Carlos no ônibus que me levava ao trabalho! Isso mesmo! De manhã cedinho (às 09 da manhã, o que pra mim aqui tem sido de madrugada) estou eu no melhor do sono de buzú quando ouço Roberto Carlos cantando uma música que agora não lembro nem o nome nem a letra... mas não esqueço a melodia... estou assobiando agora mesmo, conseguem ouvir? :) Uma música que me lembra muito os domingos da minha infância, quando minha mãe colocava um milhão de músicas de Roberto pra tocar o dia todo :)

Hoje eu entendo Garcia! O que o fez emocionar não foi Marisa Monte, foi a música conhecida que Marisa Monte cantava! Dá pra perceber que a trilha sonora brasileira que tenho escutado aqui não é das mais atrativas (pelo menos pra mim), mas posso garantir que me emocionei com todas as músicas que ouvi, porque tenho histórias com todas elas (na verdade não me emocionei com a música do É o Tchan, mas dei muita risada :)). Foi bom lembrar da infância com as músicas de Xuxa e de Roberto Carlos, foi bom lembrar de Salvador e da batucada de Carlinhos Brown. E foi muito ruim querer compartilhar essas histórias e não ter com quem fazê-lo!

Desde quando estava no Brasil tinha certeza de que voltaria pra casa em 4 anos, sejam quais forem as condições! Acho bem difícil alguém que goste do Brasil (ou da cidade onde vive) morar na Europa por vontade própria, por algum motivo que não seja a necessidade, ou essas oportunidades de momento. E imagino que o mesmo deve valer pra qualquer pessoa do mundo que sai de seu habitat natural. Volto assim que acabar, com música ou sem música, mas certamente com lágrimas.

beijos, abraços e saudades,

Charles

Eita...

Até que enfim voltei a escrever!! :) Estes últimos (vários) dias não foram muito bons para escrever no blog, principalmente porque a internet que uso em casa é de vizinhos que 'gentilmente' deixam sua rede sem fio sem senha :) Mas não é sempre que o sinal está bom o suficiente para me conectar e seria uma situação um pouco 'inusitada' ir à casa de um desses vizinhos pra reclamar do sinal ruim :)

Tenho acesso à internet da Universidade, mas por lá os dias tem sido muito agitados e ao longo do texto vão entender o "porquê".

No começo de fevereiro, quando comecei a trabalhar com Alejandro, ele me passou um problema para que eu resolvesse de forma que ao longo da resolução do problema eu poderia estudar muitos dos conteúdos básicos necessários para meus trabalhos no doutorado. Tratava-se de simular computacionalmente um nicho ecológico com certas características que não vêm ao caso (quem quiser detalhes eu posso passar por email :)).

Me disse também que ele (Alejandro) iria para Madrid por 20 dias em março, para trabalhar com um professor no Museu de Ciências Naturais, mas que eu não iria com ele porque ainda não tinha um bom trabalho pra apresentar ao professor de Madrid e coisa e tal. Perguntei-lhe o que seria 'um bom trabalho' e ele disse: Se resolvesse esse problema que te passei seria um bom trabalho, mas eu sei que o tempo não é suficiente, então não se preocupe, não vão faltar oportunidades!

Desde que cheguei aqui tenho dito que nada é melhor para aliviar as saudades do que se dedicar muuuuuito ao trabalho! Encher a cabeça de coisas, manter-se ocupado por muito tempo é a melhor forma de minizar a falta de tanta gente e de tantas coisas. Pois bem, me joguei de com força no trabalho! E por isso meus dias no IMEDEA (Instituto onde trabalho) sempre foram tão cheios que raramente ficava de bobeira na internet.

Foram dias tão intensos que, pouco a pouco, o problema que Alejandro propôs começou a ser solucionado. E eis que nessa semana ele me disse que eu vou a Madrid por 4 dias, entre 23 e 26 de março, para apresentar o que fizemos até agora e para ouvir as críticas do professor (que é geógrafo e trabalha bastante com estudos de ecologia, cadeia alimentar e adjascências... )

Um bom presente de aniversário (24 de março eu apago 27 velas no bolo de chocolate :)) e um ótimo começo de trabalho. Fiquei feliz pela confiança de Alejandro e pelo retorno que tive pelas longas noites que passei diante do computador. Me senti fazendo um doutorado de uma vez por todas! :) E foi também por causa desse trabalho intensivo que estive ausente dos textos do blog por tanto tempo :)

No mais, por aqui as coisas melhoram pouco a pouco. O clima já está melhor (se fico no sol, sinto calor... mas na sombra o frio ainda é grande :)); já recebi minha carteira de identidade de estrangeiro; tenho carteiras de ônibus, metrô e trem; já recebi a primeira bolsa (VIVA! :)); ... só não tenho ainda internet em casa (apesar de ter feito o pedido há mais de uma semana, e estar esperando uma resposta de Madrid porque sou estrangeiro e todas essas coisas que eu já ouvi em um monte de lugar por aqui... enfim... há que se acostumar e ponto! :) )

Resolvi escrever hoje para dar sinal de vida e dizer que tá tudo bem, e também porque coloquei um contador no blog que me mostrou hoje que ele tem sido bem acessado nos últimos dias :)

Há que atualizar :)

Agradeço a visita, o interesse, o carinho, e em troca mando beijos e abraços, cheios de saudades :)

Charles




terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mais sobre o regionalismo espanhol

Quando estava no Brasil me perguntava porque esse regionalismo todo na Espanha. Porque falar idiomas tão locais, quando têm o castelhano para unificar todo o país? Por que se dizer parte de um mesmo país, se há tantos grupos manifestando suas identidades, requerendo independência? Mas quando cheguei aqui conversei com algumas pessoas da Catalunha e do País Basco que me fizeram repensar a situação.

No início do século passado, iniciou-se a segunda experiência espanhola como república, quando houve a expulsão do rei Alfonso XIII. Esse novo período fez nascer uma disputa política intensa entre grupos de esquerda de de direita, culminando em confronto armado conhecido como A Guerra Civil Espanhola, ainda nos primeiros anos do período republicano. Essa Guerra teve como vencedoras as tropas da direita, de perfil fascista e apoiadas por Mussolini e Hitler.

Com a vitória das tropas de direita, assumiu o Governo Espanhol o militar Francisco Franco, que impôs uma ditadura que durou quase 40 anos. Durante esse período, Franco governou de forma totalitária, com plenos poderes e com atitudes fascistas. Entre outras coisas, acabou com a autonomia das Comunidades espanholas (Catalunha, País Vasco, Galícia, Andalucía, ...) e proibiu o uso de idiomas diferentes do castelhano. Também mudou a bandeira espanhola, que antes tinha uma faixa lilás, associada a ideais de esquerda, e que agora deu lugar a mais uma faixa vermelha e um brasão de armas, associado ao militarismo do regime de Franco.

Durante o período de ditadura, os catalães, os vascos e os galegos foram proibidos de falar seu idioma local, os que desobedeciam eram punidos na maioria das vezes com a morte. Toda essa repressão fez surgir alguns grupos políticos clandestinos, que começaram a lutar por mudanças no regime político, entre eles o grupo ETA, que tem como principal bandeira a independência do País Vasco. O ETA foi responsável pela morte do braço direito de Franco, principal candidato a substituí-lo, em uma época em que Franco já estava bastante velho, com morte anunciada. A falta de um substituto e o crescimento dos movimentos de esquerda motivaram Franco a convocar à Espanha os herdeiros do trono espanhol, expulsos na época da II República. Antes de morrer, passou o poder ao Rei Juan Carlos I, que ainda hoje segue à frente da Corôa Espanhola.

Juan Carlos I fez da Espanha uma monarquia parlamentarista, em que o rei é o chefe das forças armadas e tem papel muito mais diplomático que político. Os governos espanhóis que vieram depois de Franco devolveram autonomia às Comunidades, permitiram novamente o uso dos idiomas regionais (catalão, vasco, galego, ...). Por isso que os regionalistas usam seus idiomas com tanto orgulho: é um símbolo de vitória sobre a repressão de Franco.

Mas a Espanha segue como uma monarquia e tem à frente um rei escolhido pelo próprio ditador Franco para assumir a corôa. E isso incomoda muito os regionalistas. Por isso têm mais orgulho em dizerem-se catalães, vascos ou galegos do que dizerem-se espanhóis. O Reino da Espanha não lhes dá motivo para orgulharem-se, até a bandeira do país lembra tempos de sofrimento, enquanto que suas regiões têm histórias de luta que valem à pena serem lembradas.

Esses argumentos ajudam a entender as divisões, ajudam a entender que não existe unidade em torno de um único país. A história recente da Espanha se parece muito com a história recente do Brasil, na minha opinião, porque ambos viveram períodos de ditadura marcados por repressão e violência e que terminaram sem muitas mudanças entre aqueles que estão no poder. Na Espanha, Juan Carlos I continua rei, nomeado por Franco; no Brasil, Sarney é presidente do Senado. Mas talvez, só talvez, nos falte um pouco do orgulho catalão, vasco e galego, para que não acreditemos tão facilmente no que nos conta a história oficial.

Enfim... essa é minha opinião! Já deu pra perceber que por aqui tenho feito muito mais que contas e programas de computador :)

beijos, e abraços revolucionários :)

Charles

Sobre o regionalismo espanhol

Depois de muitos dias sem conseguir escrever (seja por falta de internet nos momentos de ócio, seja por falta de ócio nos momentos com internet :)) gostaria de começar falando um pouco sobre minhas impressões sobre a Espanha e seus regionalismos, sobre o catalão, o basco e o galego.

Aqui na Espanha se falam muitos idiomas oficiais. Algumas regiões da Espanha se intitulam autônomas e preservam costumes e idiomas próprios, paralelos ao castelhano oficial em todo o país.

Na Catalunha, se fala o catalão, um idioma com escrita bastante semelhante ao francês, mas com a fala também parecida com o português. Essa região é famosa, entre outras coisas, pela dieta mediterrânea, baseada em trigo, azeite de oliva, frutos do mar e o vinho em quantidades moderadas. A principal cidade catalã é Barcelona, mas é uma região bem vasta, que alcança também as Ilhas Baleares, onde fica Palma de Maiorca. Em cada um desses lugares algumas particularidades são adicionadas ao idioma (como o baianês, o gauchês, o paulistês, ... fazem com o português) e alguns chegam a dizer que se trata de outro idioma, mas na verdade é catalão mesmo (aqui em Maiorca eles dizem que falam maiorquim).

Na Galícia, se fala o galego, um idioma de escrita bastante semelhante ao português, e com a fala parecida com o idioma da Xuxa (muitas palavras que em português são escritas com 'g', em galego são escritas com 'x'). Me perdoem a brincadeira, mas não é desrespeito com a língua, apesar de comparar com Xuxa :). A Galícia é tida como uma das regiões menos desenvolvidas da Espanha, sua economia é baseada em agricultura, pesca e turismo, e é famosa, principalmente, por ser a região onde está a cidade de Santiago de Compostela, que é o ponto final dos famosos Caminhos de Santiago. A principal cidade, no entanto, é La Corunha, de onde partiram muitos dos espanhóis que emigraram para o Brasil.

Na região conhecida como País Vasco (se pronuncia Basco), se fala o euskera, um idioma de escrita bastante semelhante ao romeno (segundo dizem, porque eu mesmo não conheço nada de romeno :)). Essa região fica bem ao norte da Espanha, fica em uma área que faz muito frio e é a região mais industrializada (e por consequência uma das mais ricas) do país. Também possui um altíssimo índice de desenvolvimento humano, duas das 3 cidades com melhor qualidade de vida do mundo estão ali localizadas (Guipúzcoa, com IDH=0,967, e Vizcaya com IDH=0,958). Sua cidade mais importante, no entanto, é Bilbao.

Todas estas regiões, de uma forma ou de outra, manifestam desejo de independência da Espanha. Em todas elas, o idioma que se aprende em casa é o idioma regional (catalão, galego ou euskera), e o castelhano só é aprendido na escola por imposição do Governo. O catalão se parece com o francês porque a Catalunha está localizada próxima à França (Leste); o galego se parece com o português porque a Galícia antes pertencia a Portugal (e naquela época o galego e o português eram o mesmo idioma); O euskera, junto com o romeno, é o idioma mais próximo do latim, porque as regiões onde são falados mantiveram-se isoladas de outras culturas por muito tempo (e ainda hoje).

Os catalães, os vascos e os galegos não têm simpatia pelo Reino de Espanha. Antes de se dizerem espanhóis, preferem falar de suas regiões. Essa característica, em um país tão pequeno como a Espanha (mais ou menos do tamanho da Bahia, um pouco menor talvez), sempre me chamaram a atenção. Mesmo no Brasil, gigantesco e cheio de diferenças regionais, creio que não existe um regionalismo tão forte quanto aqui. E essa característica me fez refletir bastante nos meus momentos de ócio sem internet. Num próximo texto escrevo um pouco sobre o que esses poucos dias na Espanha e minhas reflexões me fizeram perceber.

beijos, abraços, perdoem pela aula de história mal ministrada :) (não usem esse texto como referência para nada, ele é formado apenas por impressões pessoais e relatos de alguns amigos :)).

Charles

Obs.: Não custa falar que se estiver algo errado, por favor me corrijam nos comentários :)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Hola Carlitos!

- Como se chama?

- Eu me chamo Charles?

- Como? Poderia soletrar por favor?

- C - H - A - R - L - E - S

- Ah, sim! Muito prazer 'Carlos'. Posso te chamar de 'Carlitos'?

- ... humm ... sim... como quiser! não tem problema :)

Diálogos como esse aconteceram algumas vezes comigo aqui em Palma. Os caras têm mania de traduzir nomes e de colocar apelidos. A não ser pelas pessoas com quem já me comunicava por email, e que aprenderam a me chamar de 'Charles', a maioria das pessoas que conheci aqui me chamam de 'Carlos'. E algumas, que são mais extrovertidas e querem parecer simpáticas, se arriscam a me chamar de 'Carlitos'.

Isso acontece também com quem se chama 'Peter', 'John', ou qualquer outro nome estrangeiro que tenha uma 'tradução' pro espanhol. E como os caras gostam de colocar apelidos ('Pepe', 'Tucho', ...) essas traduções ainda ganham adaptações.

No meu caso, essa tradução até que me agrada. Pra quem não conhece minha história com detalhes, vou contar uma parte que tem a ver com esses nomes ;) (quem conta um conto aumenta um ponto, não esqueçam :))

Minha mãe me contou que quando nasci, meu pai pensou em me dar um nome com Carlos. Talvez simplesmente 'Carlos'. Àquela altura ele já tinha 6 filhos, entre eles 'Carlos Armando', 'Antonio Carlos', 'José Carlos', 'Ana Carla', 'Carlos Alberto' (é esse o nome de Beto?? :)). Minha mãe (que não é mãe de meus irmãos 'Carlos') conseguiu convencê-lo a dar-me outro nome, mas não foi muito longe e optou por 'Charles', supondo ser o equivalente de 'CARLOS' em 'francês' ou 'inglês'.

Um detalhe que muitos devem ter imaginado é que meu pai se chamava 'Carlos', e seu apelido era 'Carlitos'. Então, essa viagem à Espanha me trouxe também boas lembranças de meu pai, e um vislumbre de como teria sido minha vida se meu nome fosse igual ao seu. :)

Enfim... Só queria compartilhar essa curiosidade da vida na Espanha. Os espanhóis traduzem todos os nomes próprios, mas são incapazes de traduzir um índice estatístico, por exemplo (clustering coefficient, Kriging, etc).

beijos, abraços, saudades,

'Carlitos' :)

Casa nova

Depois de muito tempo, cá estou eu para falar de uma boa novidade: já tenho casa própria :)

Na quarta-feira da semana passada assinei contrato de aluguel de um apartamento vizinho ao de Flora. É um ap. com 4 quartos, que divido com 3 pessoas. Não tenho do que reclamar da hospedagem de Flora, mas já estava cansado de dar trabalho e em mudar a rotina dela e dos que vivem com ela. Agora, que tenho um cantinho pra chamar de 'meu', estou bem mais aliviado :)

Por conta da mudança, fiquei uns dias sem ir na Universidade, pra poder correr atrás de algumas burocracias. Também fiquei sem internet e por isso não atualizei o blog. Graças ao 'endereço físico', tenho direito a um desconto de mais de 60% no valor do transporte público (trem, metrô e ônibus) aqui em Palma. Quando tiver a carteira de estudante terei direito a mais 25% de desconto... essas vantagens vão fazer muita diferença no fim do mês :)

Assim que eu tiver fotos da casa nova posso postá-las aqui. Escrevi mais para justificar a ausência e para dizer aos interessados que já têm onde ficar quando vierem me visitar em Palma. Não vou postar o endereço porque esse blog é público :), mas quando vierem mandem um email que envio o endereço e o melhor ônibus. Uma coisa é certa: estou bem localizado, com facilidades por perto, incluindo todos os transportes da ilha.

beijos, abraços, até a próxima

Charles

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Apresentando Palma de Maiorca


A pedidos, vou colocar algumas fotos de Palma de Maiorca, da viagem que fiz em 2007, quando era aluno do mestrado em Modelagem Ambiental. A foto acima é o maior cartão postal da cidade: Uma catedral gótica que tem quase 1000 anos. Fica bem perto da casa de Flora, de frente para o mar e cercada por um grande parque chamado Parc de la Mar (em catalão). Fácil fácil conhecer quando me visitarem :)



Esse é um típico calçadão de Palma. Salvo engano, chama-se Passeig des Born. Tem alguns desses no centro da cidade, mas agora todas as árvores estão secas, um cenário um pouco sombrio e muito frio. São essas mesmas árvores que habitam a maioria das ruas da cidade. Vamos torcer pra Tarcísio Pimenta dar uma olhadinha nesse blog (só não posso prometer que vou dar abrigo a ele quando ele vier em Palma :P).



Essa imagem retrata bem o caráter turístico da cidade: a estátua viva e várias pessoas loiras e avermelhadas, com cara e roupa de turista alemão :). Não custa lembrar que quando eu estive aqui era início de verão (início de julho).



E essa é uma avenida bem com-cara-de-Palma: arborizada, com ciclovia, larga. Claro que a cidade não é toda assim, mas o que mais me marcou foram essas partes mais bonitas. :)



Pra finalizar, coloco essa foto com o Mediterrâneo, azulzinho, com águas frias (mas não geladas). Gostei do mediterrâneo, da areia limpinha da praia, mas prefiro a Baía de Todos os Santos (com Cabuçú) e a Baía de Camamu (com Boipeba) :) Me disseram que essa praia é frequentada por pessoas muito ricas pois fica perto de hotéis caros de Maiorca. Talvez por isso eu tenha me sentido um pouco um peixe fora d'água. Mas quando meu povo estiver aqui a gente vai fazer essa praia ficar um pouco diferente, menos elitizada e mais acolhedora. Não tenho dúvidas!

beijos, abraços, e espero que estas poucas fotos os encoraje a fazer uma visitinha a este recém-chegado a terras mediterrâneas :)

Choque de realidade

Aos poucos vou conhecendo um pouco mais a realidade da vida em Palma.

Já comentei sobre a burocracia daqui. Os processos são lentos e com pouca (ou nenhuma) interação com o cidadão. Alejandro costuma dizer que se o trabalhador espanhol tiver que pensar, ele para de trabalhar. E isso não acontece só nos processos burocráticos, mas em todos os trabalhos. Tudo é no automático.

Um exemplo: Fui na Seguridade Social, entrei numa fila pra pegar uma senha e perguntei à moça se Remédios estava na casa (Remédios era uma outra atendente com quem tinha conversado no dia anterior). Ela me disse: "Eu estou aqui pra te dar a senha. Pra fazer pergunta você tem que pegar essa fila e perguntar ao atendente o que você quiser." Não retruquei, entrei na fila e esperei. Em poucos minutos vi Remédios conversando com a mesma atendente, ela estava na mesa logo atrás. Que custava dizer se a moça estava ou não estava na casa? Ou ela pensava que eu era um maníaco-terrorista?

Em compensação, os serviços públicos se iniciam muito muito cedo. A casa de Flora fica em frente a um grande prédio da prefeitura (acho que é a prefeitura, na verdade :)) e todos os dias vemos pessoas trabalhando desde as 07 horas da manhã no prédio. Ainda é noite (tem amanhecido normalmente às 07:30) quando as luzes das salas estão acesas e podemos ver os funcionários em suas mesas. Por outro lado, o serviço acaba às 14 horas, e eu já cheguei às 14:05 e não fui atendido, mesmo com algumas pessoas sendo atendidas naquele mesmo momento. Mas essa questão dos horários eu não reclamo, não :).

E essa rigidez toda no trabalho tem uma contrapartida: os cidadãos também são rígidos nas cobranças que fazem... rígidos até demais, eu acho. Ontem tive o melhor exemplo disso:

A maioria dos pontos de ônibus da cidade tem um visor que acusa quanto tempo falta para passar cada ônibus, isso é massa e dá uma boa noção se vale a pena esperar ou é melhor ir de metrô, etc. Eu estava no ônibus que ia para a Universidade quando entrou uma senhora aos berros com o motorista. Ela dizia que o ônibus demorou muito, que isso era um absurdo, que aquilo era um serviço público e que POR ISSO tinha que ser de qualidade. Que era uma vergonha o visor do ponto de ônibus marcar 12 minutos e o ônibus só chegar 14 minutos depois.

A mulher falou um monte de palavrão com o motorista, que só respondeu: Perdão senhora, mas não foi minha culpa. Foi culpa do tráfego! No que ela retrucou: Não me interessa, o que me interessa é que você tinha que estar aqui há 2 minutos e eu me programei considerando que você chegaria há 2 minutos atrás!

Muitos podem pensar que isso é massa! Legal ver o cidadão lutando por seus direitos em cada pequeno detalhe. Mas eu acho isso exagero. A mesma rigidez que a mulher no ônibus teve com o motorista foi a que a mulher da recepção da Seguridade Social teve comigo. Não sei se o comportamento dos cidadãos é influenciado pelo comportamento dos servidores ou se é o contrário, mas acho os dois exgerados, e acho que se relevamos 2 minutos de atraso no ônibus podemos fazer uma pergunta à pessoa errada. Somos todos humanos e falíveis.

Sei também que alguns podem achar que isso é coisa de quem está acostumado com a bagunça do Brasil, mas pode ser que a bagunça seja uma coisa boa, afinal! A natureza é bagunçada! O leito do rio não é reto, os galhos das árvores tampouco, o movimento das massas de ar, das correntes marítimas, ... tudo é bagunçado e sem aparente ordem. Entretanto, tudo se organiza de alguma maneira e forma esse mundo perfeito em que a gente vive. Por que temos que exagerar em pôr ordem nas coisas???? :)

Não digo que essa é a realidade da vida na Espanha porque já vi que aqui cada Comunidade Autônoma tem seus próprios costumes. Palma fica na comunidade das Ilhas Baleares. Já me disseram que aqui, devido ao ambiente turístico e à presença de muitos imigrantes, as pessoas não são tão distantes umas das outras quanto em Madrid, por exemplo. Mas, vamos esperar um pouco mais pra afirmar isso :).

beijos, e abraços a todos e todas :)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A 'não se comemorar'

Nem só de flores é feito o mundo, né? :) Então este doutorado traz também algumas consequências indesejáveis e, por que não dizer, insuportáveis!

A primeira delas, óbvio, é a distância de pessoas queridas. Mãe, irmãos, noiva, família, amigos, ... mesmo com a ajuda da tecnologia (skype pra dentro :)) é uma sensação bem estranha essa que estou sentindo. Morei em Salvador 9 anos e deveria estar acostumado a passar 1 semana longe de todos. Mas em Salvador eu sabia que, se quisesse, poderia ir pra Feira numa noite e voltar na manhã seguinte. E algumas vezes fiz isso por uma necessidade ou outra :)

Já para atravessar esse marzão que nos separa agora a história é bem diferente (e bem mais cara). Por isso essa semana teve um sabor de 'eternidade'. E esses 4 anos prometem muitas eternidades pela frente. Mas, são coisas da vida. Se isso acontecesse há 10 anos atrás, nem skype eu teria pra aliviar a saudade. :P

Em ordem de importância, tenho que falar do frio. Misericórdia, que negócio chato é esse tal de frio! Por mais que eu esteja vestido, sempre tem uma parte ou outra do corpo que está descoberta, e que sente as consequências dos ventos que vêm direto do freezer. E isso porque eu só peguei temperaturas entre 7 e 15 graus aqui. Acabei pegando um resfriado chato, que parece até uma sinusite, e que não me deixa 10 minutos sem ir no banheiro cuidar do nariz. Nem quero imaginar como é viver em temperaturas abaixo de zero, menos ainda em temperaturas 40 graus abaixo de zero .

Outra coisa: a comida. Podem dizer que a dieta mediterrânea é a melhor do mundo, mais saudável e o que for! Mas eu já estou enjoado de comer azeitona, cogumelo, azeite doce, ... Mais ainda, estou enjoado de comer macarrão (já basta o que eu comia em Salvador). Além disso, os sucos daqui não são bons, o de laranja é o único natural e não se parece com nossa laranja. Os outros são de caixinha e têm gosto de remédio. Até os refrigerantes são diferentes: 'fanta' não tem gosto de 'fanta', 'sprite' não tem gosto de 'sprite'. Não é à toa que a Coca-cola faz tanto sucesso!

Mas, pra amenizar essa agonia com a comida, hoje eu fiz uma moqueca de camarão :) Os camarões daqui são legais, grandes e baratos (3 euros o pacote com meio quilo descascado e pré-cozido). Eles têm leite de côco enlatado (mais fraco que o que temos aí, é verdade) e o ingrediente principal eu trouxe do Brasil: o dendê! O que seria de mim sem minha mãe? :)

Com a moqueca sim deu pra comer que nem um desvalido. Moqueca, pirão (com farinha que trouxe do Brasil) e arroz. Pra quê mais? Sei que isso devia estar na parte de 'a se comemorar', mas não poderia deixar esse post só com coisas 'ruins'. Tinha que amenizar :)

Como diria o Esqueleto: São ossos do ofício! É o preço do sonho! :)

beijos e abraços,

Charles

A se comemorar :)

oi de novo,

Como tudo na vida, esta oportunidade de cursar o Doutorado aqui na UIB tem vantagens e desvantagens. Vou tentar expor abaixo um pouco das vantagens principais, e que são certamente motivos pra uma comemoração quando chegar no Brasil :)

O idioma é a mais imediata das vantagens. Nestes poucos dias já estou gastando meu portunhol de com força. A não ser em casa com Flora e André (no início do dia e no fim da noite), não falo português com mais ninguém. Desde pedir licença pra ir no banheiro até comprar comida no supermercado, ou para perguntar sobre o ônibus correto, tudo é no legítimo 'portunhol', que aos poucos vai ganhando forma de 'espanhol'.

Se pudesse dar um conselho aos que vierem aqui sem dominar o idioma, diria: na dúvida, improvise! O espanhol é SIM parecido com o português. Com o português (com la lengua para fuera) e a mímica é possível passar a idéia de uma frase, mas depois de fazer isso uma vez é preciso assimilar o vocabulário, claro :)

No meu caso, além do espanhol, o aprimoramento do inglês também vai ser outra vantagem. Alejandro sugeriu que sempre que a gente falar de ciência, que falemos em inglês, por pior que seja o meu inglês. Inclusive, já marcou para que eu apresente meu trabalho de mestrado (em inglês, claro) no mês de abril, para todo o grupo de pesquisa. Da mesma forma, disse que minha tese vai ser escrita em inglês. Tudo isso poderia ser feito em espanhol, mas ele sugeriu e eu aceitei que fosse em inglês. Sei que vou apanhar muito no começo, mas em 4 anos certamente poderei falar mais que um "The book is on the table". :)

Ainda na parte científica das vantagens, o simples fato de estar neste grupo merece uma comemoração regada a feijoada e caldo de cana :). Hoje assisti a uma palestra de um cara que é autor da maioria dos artigos que eu já li até hoje. Só hoje me dei conta de que vou colaborar com um grupo formado pelos caras que eu sempre usei como referência no mestrado e na graduação, além de Garcia e Roberto Andrade, claro :). Como diria Lula: "É como se um jogador, logo no início da carreira, tivesse a oportunidade de jogar com Kaká e Ronaldinho". No meu caso, esse jogador é um goleiro reserva, claro :)

Pra fechar essa parte científica, tenho que comemorar a sorte que tive de ser escolhido para este projeto e para trabalhar com Alejandro:

O projeto se chama LINCGlobal e tem a pretensão de ser o equivalente científico do IPCC. Pra quem não lembra, o IPCC é um grupo da ONU responsável por estudar as mudanças climáticas, e que vem assombrando o mundo com as suas revelações apocalípticas nos últimos dois anos. O LINCGlobal, como não tem ligação com nenhum governo, pretende estudar as mudanças climáticas, suas causas e consequências, mas sem seguir cartilhas de governos (a ONU é formada por diplomatas, é o mesmo que um Estado. O IPCC é formado por pessoas indicadas pelos Estados.).

Hoje o LINCGlobal é formado por Universidades da Espanha e do Chile e, num futuro próximo, vai se expandir para outros países da América Latina. E eu posso ser essa ligação do projeto com o Brasil. Segundo Alejandro, depois de concluir o doutorado eu posso continuar a trabalhar neste projeto, mesmo estando no Brasil (na UEFS, na UFBA, ...).

E a sorte de ter Alejandro como orientador é que ele é o único professor do grupo que trabalha com modelagem computacional. Entre os primeiros assuntos que ele me passou pra estudar estão muitos modelos computacionais que eu já conhecia ou gostaria de conhecer (e muitos desconhecidos por mim, também :)). Vi que este doutorado é perfeito pra mim. Se eu tivesse vindo pro doutorado nos anos anteriores (2006, 2007 ou 2008) certamente não teria tido a mesma oportunidade de trabalhar com coisas tão 'a ver' comigo quanto estou tendo agora. Então, esse é um motivo e tanto pra COMEMORAR!! :)

Claro, não posso deixar de comemorar o fato de ter a IMENSA ajuda de Flora por aqui. Ela me deu abrigo num momento em que a grana ainda está curta (a bolsa vai sair no fim do mês :)) e está me ensinando aos poucos alguns costumes de Palma e da Espanha. Sem falar que é um pouco do Brasil que tenho por aqui (junto com alguns amigos brasileiros que moram no mesmo prédio e estudam no mesmo Instituto que ela). Então, Viva a Flora!!!! :)

Ver todas essas coisas boas juntas e pensar que se alguma coisa diferente tivesse acontecido em minha vida elas não estariam acontecendo me faz acreditar cada vez mais que a vida é muito mais esperta do que a gente pensa! A gente não entende os 'porquês' da vida no momento em que as coisas acontecem, só depois, quando vêm as consequências. O nome disso é CAOS :) O Caos é lindo! :)

beijos, abraços, num frio da gota serena!!!! :)

Charles