quarta-feira, 3 de março de 2010

Santiago do Chile

Oi,

Volto à ativa no blog para dar notícias sobre minha estância de doutorado em Santiago (Chile). Cheguei em Santiago em 27/02/2010 para iniciar uma estância de 2 meses (uma espécie de doutorado sanduíche) e nesse mesmo dia houve um terrível terremoto de 8,8 graus Richter que trouxe muita destruição em muitas partes do país. Estão sendo dias difíceis para muita gente, principalmente para os que acompanham as notícias à distância, preocupadas com familiares e amigos que aqui residem.

Nos últimos dias tenho mantido um contato mais constante com minha família e amigos para tranquilizar-lhes a respeito de minha situação aqui em Santiago. Tenho tentado ao máximo esclarecer que a TV e a mídia em geral não se preocupam em divulgar a notícia por completo, mas apenas o que lhes interessa. E o que interessa à mídia é a audiência. E eles usam a dor para obter a audiência. Divulgam as notícias de tragédias, de morte, de terror, e se esquecem de que parte do país sobreviveu ao terremoto. Enquanto fazem isso, fazem com que qualquer um que está no Chile seja encarado como uma pessoa "abaixo de escombros" ou "abaixo de água".

Por sugestão de meu grande amigo Machado (o menino que não gosta que bulam no seu prato de comida :)), vou postar a seguir algumas mensagens que enviei a minha família e amigos a respeito da situação que eu vivi, em particular. Uma situação difícil, mas superável.

Saudações,

Charles

domingo, 3 de maio de 2009

Pra nao dizer...

Pra nao dizer que eu abandonei o blog de vez, escrevo hoje um texto bem curto, apenas como desculpa para divulgar algumas fotos :)

Faz mais de um mes que nao escrevo, e nesse intervalo algumas coisas aconteceram. Ganhei um computador novo do Projeto, pra poder rodar os modelos mais rápido (mas pra mim foi um premio pelo trabalho intensivo), tive minhas primeiras aulas (aulas de desertificaçao, em espanhol :) ), o inverno foi embora de vez, as árvores já estao floridas e durante o dia já fez até 30 graus por aqui :), e a cidade já começa a encher de turistas (a populaçao quase triplica no período de turismo).

Ainda nao tenho camera fotográfica porque quero organizar outras coisas primeiro, mas já tenho internet em casa e isso está fazendo uma diferença danada na minha vida :) Agora o único motivo que tenho pra nao escrever é a falta de tempo (ou a preguiça :)).

Nesse fim semana tirei umas fotos pela cidade com a máquina de Thiago, que veio me visitar aqui em Palma. Posto algumas dessas fotos aqui pra que voces possam comprovar que o clima já nao é mais de inverno (e que meu cabelo ainda cresce :)).

Fomos em lugares que eu já conhecia da viagem que fiz em 2007: O "Parc de la Mar", a "Catedral Gótica" e o "Passeio Marítimo". Depois de andar um bocado fomos ver o jogo entre Barcelona e Real Madrid em um bar no Centro Histórico. O Barcelona ganhou só por 6 a 2, e um monte de torcedores foi pra rua comemorar o "pré-título" do Barça... pena que a bateria da máquina estava nas últimas e nao pudemos registrar a festa da torcida :P

Improvisando uma camiseta, no calor do meio-dia :)



No terraço do museu "Es Baluard", sem saber que estava sendo fotografado :)


Mostrando a minha negritude no "Parc de la Mar" :)



Eu fingindo que estava bebado, e Thiago fingindo que gosta de futebol :)



Estes tempos nao estou muito pra escrever... durante a semana as aulas e o trabalho tem me tomado um bom tempo, e no fim de semana eu procuro fazer coisas que exijam o mínimo de concentraçao possível (por mais difícil que isso seja :)).

Encerro esse texto da mesma forma que os anteriores: torcendo pra que essas fotos estimulem meus amigos e amigas a me visitarem, e motivos nao faltam pois a cidade é muito bonita, a ilha tem muitas praias também bonitas, eu adoro (e preciso) receber amigos, e começa a fazer calor por aqui :)

beijos e abraços, num computador com o teclado desconfigurado :)

Charles

sábado, 28 de março de 2009

Aniversário em Madrid, com fotos :)

Acho que o longo tempo sem escrever já é uma tradição, então nem vou me justificar :)

Durante toda essa semana estive em Madrid, para trabalhar com um grupo de pesquisa em biodiversidade e mudanças climáticas. Apresentamos nosso primeiro projeto de pesquisa e recebemos muitas, muitas, muitas, muitas críticas, mas também muitos elogios pelo trabalho feito em tão pouco tempo (pouco mais de 1 mês). Voltamos de lá com muito mais trabalho a fazer, e bastante empolgados também.

Além das atividades de trabalho, pude reencontrar Thiago, um amigo que fez física na UFBA e agora faz o doutorado em Física na Universidade Politécnica de Madrid. Em 2007 tentamos a mesma bolsa de doutorado pela AECI, ele conseguiu e eu fiquei esperando um pouquinho mais (até agora :)). Foi muito bom reencontrar Thiago em Madrid, principalmente na semana de meu aniversário... estar com um amigo me fez muito bem :)

Na terça-feira (24.03) fui a sua casa, onde ele fez um "arroz de aniversário" pra mim. Estávamos eu, Thiago, Sílvia (que mora com Thiago e também é de Salvador e faz doutorado em Psicologia) e Frederico (um amigo de Thiago que é de Belo Horizonte e faz mestrado em Marketing).

Eu apagando o "fósforo" de 27 aninhos :)


Da esquerda pra direita: Thiago, eu, Silvia e Fred

Na quarta-feira Thiago me mostrou um pouco do centro histórico de Madrid, mas não tiramos fotos pra registrar. Fui na Plaza Maior, no Palácio do Rei e em algumas ruas do centro histórico. Como a gente trabalhava até as 06 da tarde não dava tempo de conhecer muita coisa, mas foi o mais próximo de uma atividade "turística" que eu já estive desde que cheguei aqui na Espanha.

Na quita-feira tivemos o grande dia: O Jantar Baiano! Thiago tinha dendê em casa, mas nunca tinha feito uma moqueca. Me prontifiquei a fazer uma moqueca-de-camarão-sem-sal e ele topou :) Silvia fez um feijão fradinho, o arroz e a farofa. Nesse dia Fred não estava, mas estava Mariana, uma mexicana que faz doutorado em Biologia e está no mesmo Museu onde eu fiquei trabalhando. Foi uma ótima noite, regada a música baiana (músicas do Olodum dos anos 80 e 90) e com direito a bandeira da Bahia e tudo o mais :)

Comida baiana: sem sal, mas com dendê! :)


Os três baianos! :)


Depois do dendê: eu, Thiago, Silvia e Mariana

No fim das contas, tive um aniversário mais alegre que pensei que teria. Apesar de ter trabalhado muito, pude relaxar também nessa semana. Faz um bem danado encontrar pessoas conhecidas e queridas, motivo pelo qual insisto em convidar a todos: VENHAM ME VISITAR!!!! :)

Beijos, abraços e saudades

Charles

quarta-feira, 11 de março de 2009

Canções inusitadas na Espanha

Antes de vir pra Espanha, Garcia tinha me contado algumas histórias de seu período de estudos de doutorado em La Corunha (Galícia/Espanha). Uma das que mais gostei foi a história de quando ele percebeu que era chegada a hora de voltar para o Brasil.

Ele disse que estava fazendo compras em um supermercado (o Carrefour, acho) quando começou a tocar nos auto-falantes uma música de Marisa Monte. Garcia gosta muito de Marisa Monte e disse que ao ouvir aquela música ficou tão emocionado, lembrou com tantas saudades da vida que tinha no Brasil que começou a chorar... era a hora de voltar pro Brasil!

Achei essa história bem bonita, a vida da gente é cheia de trilhas sonoras, muitas músicas nos fazem lembrar momentos bons ou ruins e, em alguns casos, podem nos motivar a tomar uma ou outra atitude... como voltar para o seu país de origem, por exemplo. Muitas vezes fiquei imaginando qual seria a trilha sonora que me faria tomar essa decisão, qual seria a trilha sonora que me faria lembrar do Brasil com uma saudade tão insuportável a ponto de voltar de imediato!

Nunca fui de ter ídolos na música, mas gosto muito de Raul Seixas, Bob Marley e Beatles (muitos dizem que tenho uma alma velha... que deveria ter nascido nos anos 60 ou 70 :))... gosto de ouvir forró também (ouvir, porque dançando eu ainda sou uma negação :)). Sempre pensei que se tivese que me emocionar ao ouvir uma música pra poder voltar pro Brasil então eu ficaria por aqui mesmo, porque acho que vai ser um pouco difícil ouvir Raul Seixas ou Luiz Gonzaga em qualquer lugar acima do Equador :) Mas, apesar de achar isso, tinha curiosidade de saber qual seria minha reação ao ouvir músicas brasileiras por aqui.

Nunca pensei qual cantor brasileiro deve fazer sucesso na Europa a ponto de ter suas músicas tocando em rádio ou em supermercados :) Só tenho notícia de um grupo que tocava lambada nos anos 80 e que fez muito sucesso por aqui, e de João Gilberto que é unanimidade intergalática (na verdade, unanimidade não porque eu não gosto :P). Nesses 41 dias confesso que tive algumas surpresas.

As primeiras músicas brasileiras que ouvi aqui foram durante o carnaval. Houve um desfile cívico na rua (parecido com o 7 de setembro). As comunidades dos povoados da ilha e dos imigrantes desfilavam fantasiados nas principais ruas, mostrando danças típicas. Algumas fantasias faziam críticas sociais, principalmente contra a crise... toda a cidade vai às ruas para assistir o desfile, muitos dos que estão assistindo também vão fantasiados. Um clima legal, bem diferente do carnaval de Salvador... nem melhor nem pior: diferente :)

Foram duas as músicas que ouvi nesse dia! A primeira foi durante um desfile de um grupo de jovens de Maiorca. E, para meu espanto, era nada mais nada menos que ILARIÊ, de Xuxa. E espanto maior ainda foi ver todo mundo nas ruas cantando a música (em espanhol, claro). Cheguei a pensar que Xuxa talvez tivesse feito uma paródia de uma música conhecida por aqui, mas estava com uns espanhóis que me disseram que eles conheciam a música cantada por Xuxa, a rubita de Brasil. Quem diria? :)

A segunda música estava tocando durante o desfile de uma comunidade russa. O pessoal desfilava simulando o exército ou algo assim. Tinham um tanque de guerra, um foguete, um monte de gente com armas de brinquedo, vestidas de soldado... e advinhem qual a música que estava tocando: uma de Carlinhos Brown, ou Carlitos Marrón, como dizem aqui :). Maria Caipirinha é o nome da música... agora o que ela tem a ver com a guerra só perguntando aos russos de Maiorca :). Por incrível que pareça, tinha menos gente cantando essa música do que cantando o ILARIÊ de Xuxa :)

Dias depois, estava em casa numa bela manhã de domingo, fazendo minha faxina semanal, quando escuto um som familiar, um sotaque conhecido e os inesquecíveis versos: "Segura o Tchan! Amarra o Tchan! Segura o Tchan-Tchan-Tchan-Tchan-Tchan!". Olhei na janela e vi um carro e seu condutor tranquilamente ouvindo É o Tchan. Simplesmente inacreditável!

Tão inacreditável quanto ouvir Roberto Carlos no ônibus que me levava ao trabalho! Isso mesmo! De manhã cedinho (às 09 da manhã, o que pra mim aqui tem sido de madrugada) estou eu no melhor do sono de buzú quando ouço Roberto Carlos cantando uma música que agora não lembro nem o nome nem a letra... mas não esqueço a melodia... estou assobiando agora mesmo, conseguem ouvir? :) Uma música que me lembra muito os domingos da minha infância, quando minha mãe colocava um milhão de músicas de Roberto pra tocar o dia todo :)

Hoje eu entendo Garcia! O que o fez emocionar não foi Marisa Monte, foi a música conhecida que Marisa Monte cantava! Dá pra perceber que a trilha sonora brasileira que tenho escutado aqui não é das mais atrativas (pelo menos pra mim), mas posso garantir que me emocionei com todas as músicas que ouvi, porque tenho histórias com todas elas (na verdade não me emocionei com a música do É o Tchan, mas dei muita risada :)). Foi bom lembrar da infância com as músicas de Xuxa e de Roberto Carlos, foi bom lembrar de Salvador e da batucada de Carlinhos Brown. E foi muito ruim querer compartilhar essas histórias e não ter com quem fazê-lo!

Desde quando estava no Brasil tinha certeza de que voltaria pra casa em 4 anos, sejam quais forem as condições! Acho bem difícil alguém que goste do Brasil (ou da cidade onde vive) morar na Europa por vontade própria, por algum motivo que não seja a necessidade, ou essas oportunidades de momento. E imagino que o mesmo deve valer pra qualquer pessoa do mundo que sai de seu habitat natural. Volto assim que acabar, com música ou sem música, mas certamente com lágrimas.

beijos, abraços e saudades,

Charles

Eita...

Até que enfim voltei a escrever!! :) Estes últimos (vários) dias não foram muito bons para escrever no blog, principalmente porque a internet que uso em casa é de vizinhos que 'gentilmente' deixam sua rede sem fio sem senha :) Mas não é sempre que o sinal está bom o suficiente para me conectar e seria uma situação um pouco 'inusitada' ir à casa de um desses vizinhos pra reclamar do sinal ruim :)

Tenho acesso à internet da Universidade, mas por lá os dias tem sido muito agitados e ao longo do texto vão entender o "porquê".

No começo de fevereiro, quando comecei a trabalhar com Alejandro, ele me passou um problema para que eu resolvesse de forma que ao longo da resolução do problema eu poderia estudar muitos dos conteúdos básicos necessários para meus trabalhos no doutorado. Tratava-se de simular computacionalmente um nicho ecológico com certas características que não vêm ao caso (quem quiser detalhes eu posso passar por email :)).

Me disse também que ele (Alejandro) iria para Madrid por 20 dias em março, para trabalhar com um professor no Museu de Ciências Naturais, mas que eu não iria com ele porque ainda não tinha um bom trabalho pra apresentar ao professor de Madrid e coisa e tal. Perguntei-lhe o que seria 'um bom trabalho' e ele disse: Se resolvesse esse problema que te passei seria um bom trabalho, mas eu sei que o tempo não é suficiente, então não se preocupe, não vão faltar oportunidades!

Desde que cheguei aqui tenho dito que nada é melhor para aliviar as saudades do que se dedicar muuuuuito ao trabalho! Encher a cabeça de coisas, manter-se ocupado por muito tempo é a melhor forma de minizar a falta de tanta gente e de tantas coisas. Pois bem, me joguei de com força no trabalho! E por isso meus dias no IMEDEA (Instituto onde trabalho) sempre foram tão cheios que raramente ficava de bobeira na internet.

Foram dias tão intensos que, pouco a pouco, o problema que Alejandro propôs começou a ser solucionado. E eis que nessa semana ele me disse que eu vou a Madrid por 4 dias, entre 23 e 26 de março, para apresentar o que fizemos até agora e para ouvir as críticas do professor (que é geógrafo e trabalha bastante com estudos de ecologia, cadeia alimentar e adjascências... )

Um bom presente de aniversário (24 de março eu apago 27 velas no bolo de chocolate :)) e um ótimo começo de trabalho. Fiquei feliz pela confiança de Alejandro e pelo retorno que tive pelas longas noites que passei diante do computador. Me senti fazendo um doutorado de uma vez por todas! :) E foi também por causa desse trabalho intensivo que estive ausente dos textos do blog por tanto tempo :)

No mais, por aqui as coisas melhoram pouco a pouco. O clima já está melhor (se fico no sol, sinto calor... mas na sombra o frio ainda é grande :)); já recebi minha carteira de identidade de estrangeiro; tenho carteiras de ônibus, metrô e trem; já recebi a primeira bolsa (VIVA! :)); ... só não tenho ainda internet em casa (apesar de ter feito o pedido há mais de uma semana, e estar esperando uma resposta de Madrid porque sou estrangeiro e todas essas coisas que eu já ouvi em um monte de lugar por aqui... enfim... há que se acostumar e ponto! :) )

Resolvi escrever hoje para dar sinal de vida e dizer que tá tudo bem, e também porque coloquei um contador no blog que me mostrou hoje que ele tem sido bem acessado nos últimos dias :)

Há que atualizar :)

Agradeço a visita, o interesse, o carinho, e em troca mando beijos e abraços, cheios de saudades :)

Charles




terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Mais sobre o regionalismo espanhol

Quando estava no Brasil me perguntava porque esse regionalismo todo na Espanha. Porque falar idiomas tão locais, quando têm o castelhano para unificar todo o país? Por que se dizer parte de um mesmo país, se há tantos grupos manifestando suas identidades, requerendo independência? Mas quando cheguei aqui conversei com algumas pessoas da Catalunha e do País Basco que me fizeram repensar a situação.

No início do século passado, iniciou-se a segunda experiência espanhola como república, quando houve a expulsão do rei Alfonso XIII. Esse novo período fez nascer uma disputa política intensa entre grupos de esquerda de de direita, culminando em confronto armado conhecido como A Guerra Civil Espanhola, ainda nos primeiros anos do período republicano. Essa Guerra teve como vencedoras as tropas da direita, de perfil fascista e apoiadas por Mussolini e Hitler.

Com a vitória das tropas de direita, assumiu o Governo Espanhol o militar Francisco Franco, que impôs uma ditadura que durou quase 40 anos. Durante esse período, Franco governou de forma totalitária, com plenos poderes e com atitudes fascistas. Entre outras coisas, acabou com a autonomia das Comunidades espanholas (Catalunha, País Vasco, Galícia, Andalucía, ...) e proibiu o uso de idiomas diferentes do castelhano. Também mudou a bandeira espanhola, que antes tinha uma faixa lilás, associada a ideais de esquerda, e que agora deu lugar a mais uma faixa vermelha e um brasão de armas, associado ao militarismo do regime de Franco.

Durante o período de ditadura, os catalães, os vascos e os galegos foram proibidos de falar seu idioma local, os que desobedeciam eram punidos na maioria das vezes com a morte. Toda essa repressão fez surgir alguns grupos políticos clandestinos, que começaram a lutar por mudanças no regime político, entre eles o grupo ETA, que tem como principal bandeira a independência do País Vasco. O ETA foi responsável pela morte do braço direito de Franco, principal candidato a substituí-lo, em uma época em que Franco já estava bastante velho, com morte anunciada. A falta de um substituto e o crescimento dos movimentos de esquerda motivaram Franco a convocar à Espanha os herdeiros do trono espanhol, expulsos na época da II República. Antes de morrer, passou o poder ao Rei Juan Carlos I, que ainda hoje segue à frente da Corôa Espanhola.

Juan Carlos I fez da Espanha uma monarquia parlamentarista, em que o rei é o chefe das forças armadas e tem papel muito mais diplomático que político. Os governos espanhóis que vieram depois de Franco devolveram autonomia às Comunidades, permitiram novamente o uso dos idiomas regionais (catalão, vasco, galego, ...). Por isso que os regionalistas usam seus idiomas com tanto orgulho: é um símbolo de vitória sobre a repressão de Franco.

Mas a Espanha segue como uma monarquia e tem à frente um rei escolhido pelo próprio ditador Franco para assumir a corôa. E isso incomoda muito os regionalistas. Por isso têm mais orgulho em dizerem-se catalães, vascos ou galegos do que dizerem-se espanhóis. O Reino da Espanha não lhes dá motivo para orgulharem-se, até a bandeira do país lembra tempos de sofrimento, enquanto que suas regiões têm histórias de luta que valem à pena serem lembradas.

Esses argumentos ajudam a entender as divisões, ajudam a entender que não existe unidade em torno de um único país. A história recente da Espanha se parece muito com a história recente do Brasil, na minha opinião, porque ambos viveram períodos de ditadura marcados por repressão e violência e que terminaram sem muitas mudanças entre aqueles que estão no poder. Na Espanha, Juan Carlos I continua rei, nomeado por Franco; no Brasil, Sarney é presidente do Senado. Mas talvez, só talvez, nos falte um pouco do orgulho catalão, vasco e galego, para que não acreditemos tão facilmente no que nos conta a história oficial.

Enfim... essa é minha opinião! Já deu pra perceber que por aqui tenho feito muito mais que contas e programas de computador :)

beijos, e abraços revolucionários :)

Charles

Sobre o regionalismo espanhol

Depois de muitos dias sem conseguir escrever (seja por falta de internet nos momentos de ócio, seja por falta de ócio nos momentos com internet :)) gostaria de começar falando um pouco sobre minhas impressões sobre a Espanha e seus regionalismos, sobre o catalão, o basco e o galego.

Aqui na Espanha se falam muitos idiomas oficiais. Algumas regiões da Espanha se intitulam autônomas e preservam costumes e idiomas próprios, paralelos ao castelhano oficial em todo o país.

Na Catalunha, se fala o catalão, um idioma com escrita bastante semelhante ao francês, mas com a fala também parecida com o português. Essa região é famosa, entre outras coisas, pela dieta mediterrânea, baseada em trigo, azeite de oliva, frutos do mar e o vinho em quantidades moderadas. A principal cidade catalã é Barcelona, mas é uma região bem vasta, que alcança também as Ilhas Baleares, onde fica Palma de Maiorca. Em cada um desses lugares algumas particularidades são adicionadas ao idioma (como o baianês, o gauchês, o paulistês, ... fazem com o português) e alguns chegam a dizer que se trata de outro idioma, mas na verdade é catalão mesmo (aqui em Maiorca eles dizem que falam maiorquim).

Na Galícia, se fala o galego, um idioma de escrita bastante semelhante ao português, e com a fala parecida com o idioma da Xuxa (muitas palavras que em português são escritas com 'g', em galego são escritas com 'x'). Me perdoem a brincadeira, mas não é desrespeito com a língua, apesar de comparar com Xuxa :). A Galícia é tida como uma das regiões menos desenvolvidas da Espanha, sua economia é baseada em agricultura, pesca e turismo, e é famosa, principalmente, por ser a região onde está a cidade de Santiago de Compostela, que é o ponto final dos famosos Caminhos de Santiago. A principal cidade, no entanto, é La Corunha, de onde partiram muitos dos espanhóis que emigraram para o Brasil.

Na região conhecida como País Vasco (se pronuncia Basco), se fala o euskera, um idioma de escrita bastante semelhante ao romeno (segundo dizem, porque eu mesmo não conheço nada de romeno :)). Essa região fica bem ao norte da Espanha, fica em uma área que faz muito frio e é a região mais industrializada (e por consequência uma das mais ricas) do país. Também possui um altíssimo índice de desenvolvimento humano, duas das 3 cidades com melhor qualidade de vida do mundo estão ali localizadas (Guipúzcoa, com IDH=0,967, e Vizcaya com IDH=0,958). Sua cidade mais importante, no entanto, é Bilbao.

Todas estas regiões, de uma forma ou de outra, manifestam desejo de independência da Espanha. Em todas elas, o idioma que se aprende em casa é o idioma regional (catalão, galego ou euskera), e o castelhano só é aprendido na escola por imposição do Governo. O catalão se parece com o francês porque a Catalunha está localizada próxima à França (Leste); o galego se parece com o português porque a Galícia antes pertencia a Portugal (e naquela época o galego e o português eram o mesmo idioma); O euskera, junto com o romeno, é o idioma mais próximo do latim, porque as regiões onde são falados mantiveram-se isoladas de outras culturas por muito tempo (e ainda hoje).

Os catalães, os vascos e os galegos não têm simpatia pelo Reino de Espanha. Antes de se dizerem espanhóis, preferem falar de suas regiões. Essa característica, em um país tão pequeno como a Espanha (mais ou menos do tamanho da Bahia, um pouco menor talvez), sempre me chamaram a atenção. Mesmo no Brasil, gigantesco e cheio de diferenças regionais, creio que não existe um regionalismo tão forte quanto aqui. E essa característica me fez refletir bastante nos meus momentos de ócio sem internet. Num próximo texto escrevo um pouco sobre o que esses poucos dias na Espanha e minhas reflexões me fizeram perceber.

beijos, abraços, perdoem pela aula de história mal ministrada :) (não usem esse texto como referência para nada, ele é formado apenas por impressões pessoais e relatos de alguns amigos :)).

Charles

Obs.: Não custa falar que se estiver algo errado, por favor me corrijam nos comentários :)