Aos poucos vou conhecendo um pouco mais a realidade da vida em Palma.
Já comentei sobre a burocracia daqui. Os processos são lentos e com pouca (ou nenhuma) interação com o cidadão. Alejandro costuma dizer que se o trabalhador espanhol tiver que pensar, ele para de trabalhar. E isso não acontece só nos processos burocráticos, mas em todos os trabalhos. Tudo é no automático.
Um exemplo: Fui na Seguridade Social, entrei numa fila pra pegar uma senha e perguntei à moça se Remédios estava na casa (Remédios era uma outra atendente com quem tinha conversado no dia anterior). Ela me disse: "Eu estou aqui pra te dar a senha. Pra fazer pergunta você tem que pegar essa fila e perguntar ao atendente o que você quiser." Não retruquei, entrei na fila e esperei. Em poucos minutos vi Remédios conversando com a mesma atendente, ela estava na mesa logo atrás. Que custava dizer se a moça estava ou não estava na casa? Ou ela pensava que eu era um maníaco-terrorista?
Em compensação, os serviços públicos se iniciam muito muito cedo. A casa de Flora fica em frente a um grande prédio da prefeitura (acho que é a prefeitura, na verdade :)) e todos os dias vemos pessoas trabalhando desde as 07 horas da manhã no prédio. Ainda é noite (tem amanhecido normalmente às 07:30) quando as luzes das salas estão acesas e podemos ver os funcionários em suas mesas. Por outro lado, o serviço acaba às 14 horas, e eu já cheguei às 14:05 e não fui atendido, mesmo com algumas pessoas sendo atendidas naquele mesmo momento. Mas essa questão dos horários eu não reclamo, não :).
E essa rigidez toda no trabalho tem uma contrapartida: os cidadãos também são rígidos nas cobranças que fazem... rígidos até demais, eu acho. Ontem tive o melhor exemplo disso:
A maioria dos pontos de ônibus da cidade tem um visor que acusa quanto tempo falta para passar cada ônibus, isso é massa e dá uma boa noção se vale a pena esperar ou é melhor ir de metrô, etc. Eu estava no ônibus que ia para a Universidade quando entrou uma senhora aos berros com o motorista. Ela dizia que o ônibus demorou muito, que isso era um absurdo, que aquilo era um serviço público e que POR ISSO tinha que ser de qualidade. Que era uma vergonha o visor do ponto de ônibus marcar 12 minutos e o ônibus só chegar 14 minutos depois.
A mulher falou um monte de palavrão com o motorista, que só respondeu: Perdão senhora, mas não foi minha culpa. Foi culpa do tráfego! No que ela retrucou: Não me interessa, o que me interessa é que você tinha que estar aqui há 2 minutos e eu me programei considerando que você chegaria há 2 minutos atrás!
Muitos podem pensar que isso é massa! Legal ver o cidadão lutando por seus direitos em cada pequeno detalhe. Mas eu acho isso exagero. A mesma rigidez que a mulher no ônibus teve com o motorista foi a que a mulher da recepção da Seguridade Social teve comigo. Não sei se o comportamento dos cidadãos é influenciado pelo comportamento dos servidores ou se é o contrário, mas acho os dois exgerados, e acho que se relevamos 2 minutos de atraso no ônibus podemos fazer uma pergunta à pessoa errada. Somos todos humanos e falíveis.
Sei também que alguns podem achar que isso é coisa de quem está acostumado com a bagunça do Brasil, mas pode ser que a bagunça seja uma coisa boa, afinal! A natureza é bagunçada! O leito do rio não é reto, os galhos das árvores tampouco, o movimento das massas de ar, das correntes marítimas, ... tudo é bagunçado e sem aparente ordem. Entretanto, tudo se organiza de alguma maneira e forma esse mundo perfeito em que a gente vive. Por que temos que exagerar em pôr ordem nas coisas???? :)
Não digo que essa é a realidade da vida na Espanha porque já vi que aqui cada Comunidade Autônoma tem seus próprios costumes. Palma fica na comunidade das Ilhas Baleares. Já me disseram que aqui, devido ao ambiente turístico e à presença de muitos imigrantes, as pessoas não são tão distantes umas das outras quanto em Madrid, por exemplo. Mas, vamos esperar um pouco mais pra afirmar isso :).
beijos, e abraços a todos e todas :)
Já comentei sobre a burocracia daqui. Os processos são lentos e com pouca (ou nenhuma) interação com o cidadão. Alejandro costuma dizer que se o trabalhador espanhol tiver que pensar, ele para de trabalhar. E isso não acontece só nos processos burocráticos, mas em todos os trabalhos. Tudo é no automático.
Um exemplo: Fui na Seguridade Social, entrei numa fila pra pegar uma senha e perguntei à moça se Remédios estava na casa (Remédios era uma outra atendente com quem tinha conversado no dia anterior). Ela me disse: "Eu estou aqui pra te dar a senha. Pra fazer pergunta você tem que pegar essa fila e perguntar ao atendente o que você quiser." Não retruquei, entrei na fila e esperei. Em poucos minutos vi Remédios conversando com a mesma atendente, ela estava na mesa logo atrás. Que custava dizer se a moça estava ou não estava na casa? Ou ela pensava que eu era um maníaco-terrorista?
Em compensação, os serviços públicos se iniciam muito muito cedo. A casa de Flora fica em frente a um grande prédio da prefeitura (acho que é a prefeitura, na verdade :)) e todos os dias vemos pessoas trabalhando desde as 07 horas da manhã no prédio. Ainda é noite (tem amanhecido normalmente às 07:30) quando as luzes das salas estão acesas e podemos ver os funcionários em suas mesas. Por outro lado, o serviço acaba às 14 horas, e eu já cheguei às 14:05 e não fui atendido, mesmo com algumas pessoas sendo atendidas naquele mesmo momento. Mas essa questão dos horários eu não reclamo, não :).
E essa rigidez toda no trabalho tem uma contrapartida: os cidadãos também são rígidos nas cobranças que fazem... rígidos até demais, eu acho. Ontem tive o melhor exemplo disso:
A maioria dos pontos de ônibus da cidade tem um visor que acusa quanto tempo falta para passar cada ônibus, isso é massa e dá uma boa noção se vale a pena esperar ou é melhor ir de metrô, etc. Eu estava no ônibus que ia para a Universidade quando entrou uma senhora aos berros com o motorista. Ela dizia que o ônibus demorou muito, que isso era um absurdo, que aquilo era um serviço público e que POR ISSO tinha que ser de qualidade. Que era uma vergonha o visor do ponto de ônibus marcar 12 minutos e o ônibus só chegar 14 minutos depois.
A mulher falou um monte de palavrão com o motorista, que só respondeu: Perdão senhora, mas não foi minha culpa. Foi culpa do tráfego! No que ela retrucou: Não me interessa, o que me interessa é que você tinha que estar aqui há 2 minutos e eu me programei considerando que você chegaria há 2 minutos atrás!
Muitos podem pensar que isso é massa! Legal ver o cidadão lutando por seus direitos em cada pequeno detalhe. Mas eu acho isso exagero. A mesma rigidez que a mulher no ônibus teve com o motorista foi a que a mulher da recepção da Seguridade Social teve comigo. Não sei se o comportamento dos cidadãos é influenciado pelo comportamento dos servidores ou se é o contrário, mas acho os dois exgerados, e acho que se relevamos 2 minutos de atraso no ônibus podemos fazer uma pergunta à pessoa errada. Somos todos humanos e falíveis.
Sei também que alguns podem achar que isso é coisa de quem está acostumado com a bagunça do Brasil, mas pode ser que a bagunça seja uma coisa boa, afinal! A natureza é bagunçada! O leito do rio não é reto, os galhos das árvores tampouco, o movimento das massas de ar, das correntes marítimas, ... tudo é bagunçado e sem aparente ordem. Entretanto, tudo se organiza de alguma maneira e forma esse mundo perfeito em que a gente vive. Por que temos que exagerar em pôr ordem nas coisas???? :)
Não digo que essa é a realidade da vida na Espanha porque já vi que aqui cada Comunidade Autônoma tem seus próprios costumes. Palma fica na comunidade das Ilhas Baleares. Já me disseram que aqui, devido ao ambiente turístico e à presença de muitos imigrantes, as pessoas não são tão distantes umas das outras quanto em Madrid, por exemplo. Mas, vamos esperar um pouco mais pra afirmar isso :).
beijos, e abraços a todos e todas :)
2 comentários:
Charlinhos, descordo de vc, não gosto da bagunça. Dá para ter ordem, ter organização, ter horário certo para pegar o ônibus e ter a sensibilidade de falar "sim, Remédios está aqui, quando eu tiver um tempinho, eu falo pra ela que vc está aqui". Acho que funcionaria se tivéssemos ordem e organização atrelados a bom senso, sensibilidade e respeito. O que significa 2 min de atraso?
Espero que vc não passe por isso de novo. ;-)
Beijo e fique bem longe desse povo mal-educado,
Cá - a indignada!
Meu mano, esse texto foi providencial! Estou num debate no trabalho sobre até que ponto o "funcionário-taxímetro" é importante e a partir de quando isso pode gerar a "desumanização" das relações e até travar alguns serviços, pontualmente.
Muito obrigado, Charlie!
E SUCESSSO!!! (de novo!)
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